segunda-feira, abril 30

YOU DON'T KNOW THE POWER OF THE BLACK SIDE

Toda quinta-feira tem uma tal de Quinta Black no Downtown, que é uma reedição da que tinha no extinto Mad Pub, que, conforme sugere o nome, só toca black music. Pois uma quinta dessas Leo me liga e diz que agora está solteiro, tinha acabado o namoro recentemente e estava precisando de rever os amigos, e diz que está com dois convites pra Quinta Black Ladies Free.

Putamerda, Leo, quintabléqui é foda, ele já havia me arrastado uma vez pra essa coisa quando ainda era no Mad Pub, onde ele geralmente se atracava aos beijos com alguma menina e eu ficava a ouvir navios. Mas como ele tinha acabado em definitivo o namoro de vários anos com a minha querida amiga Érica, resolvi emprestar o meu ombro amigo, mesmo sabendo que era tudo mentira, que ele não estava precisando de ombro amigo porra nenhuma, e sim babando de felicidade por estar de volta à gandaia e querendo um cúmplice.

Saí do jornal e fui pro Downtown, e Leo já estava na porta me esperando.
-Vamulá, cara, esses convites são cinderelas, só valem até meia-noite.
Entramos e as ladies já estavam todas free, rebolando e requebrando ao som dos muddafocka, muddafocka, e eu fui logo tratando de engolir rapidamente umas vodkas pra tornar a música e as pessoas mais interessantes. Leo, depois de me explicar rapidamente os trâmites do seu trágico desfecho amoroso, parecia mais uma raposa no galinheiro e lançava uma metralhadora giratória de olhares cobiçosos para todos os lados. Na terceira vodka eu comecei a me animar também, e Leo começou a paquerar uma linda moça, mas que tinha uma amiga mais linda ainda, a qual quem começou a paquerar fui eu. Digamos, se as duas estivessem no Big Brother, a de Leo ganhava o milhão, mas que ia posar pra Playboy era a minha.

Leo se apresentou à linda e a linda me apresentou à mais-linda-ainda, e eu me juntei a elas dançando no ritmo daquele ritual de acasalamento tribal e primitivo. Leo começou a tentar jogar a sua cascata pra cima da linda, mas nem ela nem a mais-linda-ainda não estavam muito a fim de papo, estavam querendo era dançar. E Leo não dança, só papeia. O papo, ou o que restou dele, morgou e Leo me chamou pra dar uma subida no mezzanino pra dar um rolê e ver o que rolava. Na subida da escada Leo me confessou que não foi dar logo em cima da outra porque achou que era muita areia pro caminhão dele.

Quando voltamos, nos acotovelando no meio da multidão, encontrei as duas sentadas perto do balcão.
-Oi, e já cansaram?
-Faltou combustível!
-Não seja por isso!
Pedi três vodkas e uma latinha de Sprite Free. Leo ficou olhando a alguns passos de distância, meio desconfiado. As meninas recomeçaram a dançar, e eu no meio, dançando também aquela música maravilhosamente black, abraçado com as duas. Elas começaram a apontar pra Leo e botar o polegar pra baixo, como quem diz que ele estava muito desanimado, e ele sorrindo amarelo. Daí a pouco pedi mais três vodkas só com gelo. Elas bebericaram e a linda fez uma careta, e a mais-linda-ainda fez beicinho:

-Não tem Sprite dessa vez?
-Ah, não, aí você já está querendo demais. Só se me der um beijo.
-Então vamos lá, um beijo triplo.

Então as duas me beijaram ao mesmo tempo: foi um festival de lábios e línguas pra tudo que é lado, e daí a pouco ninguém sabia mais quem estava beijando quem.
Leo quase teve um enfarte de inveja e até hoje só fala nisso: no dia em que a criatura engoliu o criador.

segunda-feira, abril 23

BEM-AVENTURADOS OS QUE SE VÊEM DE UM JEITO SÓ

Na sexta fui com Ronaldo, meu confrade cartunista que também é arquiteto, lá no ap novo pra ele dar pitacos arquitetônicos. E hoje, domingo, fui sozinho lá pra lubrificar a tranca da grade de entrada do corredor, que divido com o meu vizinho de lado, que deve ser masoquista ou halterofilista, pois estava quase inexpugnável. E também levar um desenho meu que estava dentro do meu carro há dois anos. Quando vocês virem o tamanho do desenho saberão porque, simplesmente não cabia dentro do ap antigo. Também não coube no novo, mas pelo menos deu pra estender no chão da sala vazia pra desamassar. É um cartaz em vinil do Festival do Humor de 2005 que botaram na frente da Torre Malakoff, de uns quinze metros de altura por uns cinco de largura, e no qual tem um palhaço-véio-do-pastoril de minha autoria, que eu estou querendo botar na parede da sala. O palhaço é bem menor, mas também não vai caber, vou ter que capar a sombrinha-sorriso e deixar só a bengala, ou cortar um pedaço da bengala, breve saberemos.

Mas o melhor de tudo foi que conheci a mãe de Jesus, que não se chama Maria, mas Nita. Impossível esquecer, é o mesmo nome da minha ex-sogra. E Jesus, que deverei conhecer depois, também não dá pra esquecer, né? Ambos me serão de grande valia quando começarem os festejos e comemorações de inauguração do ap, pois realizarão o milagre da multiplicação das cervejas: eles são os donos da barraca da frente.

Margarida, jornalista e baladeira de plantão, que também trabalha no JC e também mora sozinha no Alfredão, foi quem me recomendou. Disse que eles são super gente fina, fazem fiado e não se importam se a gente demora a devolver os cascos vazios de cerveja. Essa tá pra mim. Resolvi ir logo testar a boa vontade de Dona Maria, digo Dona Nita, e fui lá tomar uma coca light só com 50 centavos no bolso. Barraca arrumadíssima, mais parece um barzinho, todo em cerâmica, bem iluminado, e tem até uma escultura assim meio modernosa adornando o balcão da frente. Apresentei logo as minhas credenciais de amigo de Margarida e de novo futuro morador do Alfredão, e ela me tranqüilizou dizendo que não tem problema nenhum, depois você traz o resto, aquela menina é de ouro, gosto muito dela, a gente só vê ela de um jeito só.

Essa última frase, "a gente só vê ela de um jeito só", para aqueles não familiarizados com o nosso cockney, significa que ela está sempre de alto astral e bem-humorada. No que ela fazia muito bem, segundo Dona Nita, pois da vida não se leva nada.

Concordei plenamente, e perguntei a que horas ela fechava, informação importantíssima. Ela disse que fechava todo dia à meia-noite (nada mau), mas que hoje, como era domingo e estava chovendo muito, ia fechar às dez. Dez horas da noite... num domingo... e chovendo desse jeito... não vai trazer nada de bom. É melhor recolher, amanhã tem mais freguês, se Deus quiser.

Concordei de novo, mais plenamente ainda, e me despedi, jurando ajoelhado aos pés da cruz que, se depender de mim, freguesia não vai faltar.

IN HOC SIGNO VINCES

AGORA É PRA VALER, COMEÇOU A CONTAGEM REGRESSIVA: HOJE PEGUEI AS CHAVES DO NOVO APARTAMENTO!

PEDRA FUNDAMENTAL

Hoje fui no cemitério e a lápide estava lá no túmulo, imponente e majestosa em seu granito preto, toda impregnada de eternidade. Parecia que estava lá desde a fundação dos séculos.

REQUIEM AETERNAM

Aconteceu de meu querido Tio Lula morrer em 2002, e foi enterrado no mesmo túmulo no cemitério de Santo Amaro junto com o meu pai, que morreu em 1964. Dois anos depois a esposa de tio Lula, minha igualmente querida Tia Dadinha, veio também a falecer e foi enterrada junto do marido, portanto também no túmulo do meu pai. Só que nesse abre e fecha de túmulo, o que ficou lá não foi uma lápide decente, mas uma parede de cimento com nomes e datas riscados a prego. Coisa muito feia. Minha mãe sempre que ia lá no Dia de Finados reclamava muito, e eu disse que ia mandar fazer uma lápide com um escultor amigo meu e botar lá o mais rápido possível.

Como esse mais rápido possível estava ficando pro Dia de São Nunca, minha mãe resolveu mandar fazer com um homem que ela arranjou que ganhava a vida fazendo exatamente isso, lápides para túmulos. Eu ainda tentei intervir de última hora com as mirabolantes opções artísticas que eu tinha tramado com o meu amigo, mas o bom senso familiar houve por bem restringir a duas pequenas máscaras de teatro nas datas de Tio Lula, que era dramaturgo: em vez de estrelinha e cruz, a máscara alegre no nascimento e a triste na morte.

Mas botar lápide em túmulo não é tão simples assim. No cemitério informaram à minha mãe que tem que ter uma licença da Emlurb, que é aquele departamento governamental que administra o recolhimento diário do lixo urbano. Como essa licença de botar lápides em túmulos foi parar sob a responsabilidade da empresa que se encarrega de fazer sumir os detritos nossos de cada dia, não faço idéia. Chega a ser uma licença poética, da poesia de Augusto dos Anjos, bem entendido. Minha mãe chegou lá já com o pedreiro pra tirar as medidas e iniciar as obras, mas doce ilusão. A partir daí estabeleceu-se um processo burocrático de dar inveja, se não a Kafka, pelo menos a Abbott & Costello.

-Eu queria botar a lápide do túmulo do meu marido, e trouxe aqui o pedreiro para tirar as medidas pra fazer a pedra.
-A senhora tem que ter autorização do titular do túmulo.
-Quem está enterrado lá é o meu marido.
-Sim, mas a senhora tem que ter autorização do titular do túmulo.
-O titular do túmulo não é quem está enterrado lá?
-Não. O titular do túmulo é quem comprou o túmulo para quem está enterrado lá ser enterrado lá.
-Mas eu não sei quem comprou o túmulo. Deve ter sido um dos irmãos dele.
-Diga o nome do irmão dele para ver se consta.
-Veja aí Josaphat Marinho.
-Tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic. Não está no nome dele.
-Veja Denizar Marinho.
- Tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic. Não está no nome dele.
-Veja Luiz Marinho.
- Tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic. Não está no nome dele.
-Veja Carlos Marinho.
- Tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic. Carlos Marinho consta. Temos que ter a autorização do Sr. Carlos, que é o proprietário do túmulo, para poder botar a lápide.
-Mas Carlos, que era o meu cunhado, já morreu também.
-Ele está enterrado nesse túmulo?
-Não, ele está enterrado em outro túmulo, quem está enterrado nesse é o meu marido e um outro irmão dele, junto com a esposa.
-Irmão do Sr. Carlos ou do seu marido?
-Irmão do Sr. Carlos e do meu marido. São três irmãos. Dois enterrados num túmulo, que pertence a Carlos, e Carlos está enterrado em outro túmulo, que não é esse em questão no qual queremos botar a lápide.
-Então só o irmão do Sr. Carlos pode requerer a titularidade. Venha aqui com o Sr. Josafá.
-Ele já morreu também.
-Então pode ser o Sr. Dinizar.
-Também já morreu.
-Então o Sr. Luiz.
-Não só já morreu também, como também está enterrado nesse túmulo no qual queremos botar a lápide.
-Ah, sim, a senhora é a viúva dele?
-Não, sou a viúva de Osíris, o irmão dele, que foi o primeiro a ser enterrado nesse túmulo. A viúva dele também já morreu, e está enterrada junto dele nesse mesmo túmulo.
-Então a esposa do Sr. Carlos tem que autorizar.
-Ela também já morreu. Aliás, quando ele morreu já estava viúvo.
-Ela também já morreu? É ela que está enterrada nesse túmulo?
-Não, quem está enterrada nesse túmulo é a esposa de Luiz Marinho, que era irmão de Carlos, junto com o próprio Luiz Marinho e o meu marido Osíris.
-O Sr. Carlos não está enterrado junto com a esposa?
-Isso eu não sei. Mas eles não estão enterrados nesse túmulo no qual queremos botar a lápide.
-Mas o túmulo pertence ao Sr. Carlos?
-Pertence porque foi ele que veio comprar na ocasião do falecimento do meu marido, mas ele não usou para ele próprio ser enterrado, entende?
-Entendo. Então só com autorização de algum filho dele.
-Ele não teve filhos.
-Não teve filhos?!?
-Não.
- Se ele não teve filhos e não tem mais irmãos que possam vir, a titularidade tem que ser transferida para algum sobrinho.
-Tá certo. Vou mandar o meu filho aqui para a titularidade ser transferida para ele. O que precisa?
-Aqui não, ele tem que ir na Emlurb. Cópia da certidão de óbito do Sr. Carlos, cópia da certidão de óbito do seu marido e cópias dos documentos do seu filho para comprovar a ligação de parentesco.

Foi aí que eu entrei oficialmente na história. Nove horas da madrugada minha mãe me liga dizendo que era eu que tinha que ir na Emlurb. Depois de muito procurar, consegui desentocar essa enorme repartição das entranhas de uma obscura rua no centro da cidade.

-Bom dia.
-Boa tarde.
-É o seguinte: eu quero botar uma lápide nesse túmulo que está em nome de Carlos Marinho Falcão, e eu tenho que ter a titularidade transferida para mim para poder autorizar o cemitério a permitir o pedreiro botar a lápide.
-Onde está Carlos Marinho Falcão?
-Já morreu.
-Você é parente dele?
-Sou sobrinho. Tenho aqui os documentos comprovando.
-Tem que ter a autorização da esposa.
-Como pode ver aqui na certidão de óbito dele, quando ele morreu já era viúvo, o que significa que a esposa dele também já morreu, e até antes dele.
-Então só com um filho.
-Ele não teve filhos.
-Não teve filhos?!?
-Não.
-Então só com um irmão. Ele não tem irmão?
-Tem. Tem um irmão e duas irmãs, mas já são idosos e moram no interior. Todos os outros já morreram também.
-E ele está enterrado nesse túmulo?
-Não, ele está enterrado em outro túmulo.
-E quem está enterrado nesse túmulo?
-O meu pai, o irmão dele e a esposa.
-A esposa do seu avô do interior?
-Avô?!? Não, a esposa do meu outro tio, o que foi enterrado junto com o meu pai.
-E esse seu outro tio teve filhos?
-Teve. Teve logo quatro.
-Então traga as cópias da identidade e do CPF dos seus primos, pois como os pais deles estão enterrados nesse túmulo, eles também têm direito.

Respirei fundo e voltei à carga.

-Meu amigo, eu quase nunca vejo os meus primos, só em dia de festa. Vou levar um século pra arrecadar esses documentos. Tem certeza que isso é necessário?
-Mas se um dia eles quiserem mexer no túmulo eles vão ter que pedir a sua autorização.
-Se um dia eles quiserem mexer no túmulo eu darei a autorização.
-Mas se você morrer antes?
-Aí eu acho que eles vão ter que passar pelo que eu estou passando e provar que são meus primos. É obrigatório ter os documentos dos primos?
-Não, é opcional.
-Então esqueça. Bota só o meu nome.
-Você vai querer a titularidade dos dois túmulos?
-Dois? Não, não, não, só esse que o meu pai está enterrado mesmo, que é pra botar a lápide. Deixa o de Tio Carlos em paz.
-Mas você pode requerer a titularidade dos dois.
-Que ótimo, antes eu não tinha nenhum, agora tenho dois. Mas me deixa só com um mesmo.
-Pronto, foi dado entrada no processo. Volte dentro de quinze dias.

Quinze dias depois uma moça me liga e diz que está faltando a certidão de óbito do meu pai, que é para provar que eu sou filho dele e conseqüentemente sobrinho do Sr. Carlos. E não era que eu não tinha levado mesmo? Só levei a de Tio Carlos. Não só não levei a do meu pai como perdi a cópia. Minha mãe, não muito satisfeita, pra dizer o mínimo, me deu outra e eu levei na Emlurb.

-Pronto, aqui está.
-Certo. Vou anexar ao processo e enviar ao cemitério. Volte daqui a quinze dias.
-Quinze dias?!? Eu pensei que já estava tudo pronto, já se passaram quinze dias.
-Mas é que faltava a certidão de óbito do seu pai.

E é claro que eles tinham que esperar todo esse tempo pra me dizer isso. Liguei pra minha mãe pra informar a quantas andava o processo e ela foi logo me dizendo que a lápide já estava pronta, tinha ficado muito bonita, mas o pedreiro estava impaciente pra botar a pedra lá no túmulo, pois estava guardada numa oficina que não era a dele e podia acontecer algum acidente e quebrar. E que ele já tinha inclusive ido lá no cemitério pra começar a limpar a parede, mas nem isso deram autorização pra ele fazer. Portanto eu que pressionasse pra que a coisa andasse logo. Pressionar como? Oferecer propina? Botar um revólver na cabeça de uma funcionária e fazer ela como refém? Atear fogo nas minhas vestes e ficar na posição de lótus? Já se esperou tanto tempo, uns diazinhos a mais ou a menos não vão matar nem ressuscitar ninguém. O pedreiro que trate de tomar conta da pedra bem direitinho, senão eu apedrejo ele com o que sobrar da lápide.

Uma semana depois minha mãe me liga e pede o número do processo, porque a mulher lá vociferou ferozmente que só pelo nome não dá pra saber a quantas anda o andamento do dito cujo. Depois minha mãe me liga e diz que o processo não está no cemitério. Eu ligo pra Emlurb e eles dizem que o processo ainda não voltou pra lá.
-Mas no cemitério disseram que o processo também não estava lá.
-Mas foi enviado para lá. Se não está lá, é porque deve estar a caminho daqui.

É claro, faz sentido. Mamãe esqueceu de perguntar ao cemitério se o processo havia algum dia chegado lá. Se não perguntou, como eles poderiam responder? E o processo, claro, deveria estar sendo levado pra Emlurb por alguma alma penada arrastando longas e pesadas correntes, por isso a demora no trânsito.

Chega finalmente o grande dia e o processo se materializa de novo na Emlurb. Minha mãe me liga dizendo que eles ligaram pra ela dizendo pra eu comparecer lá urgente que a autorização estava pronta, e que eles fecham de uma e meia da tarde. Lá vou eu às 10 horas da madrugada com uma urgente cara de sono. A mulher, depois de me entregar a autorização, ainda insiste que eu tenho que levar as cópias dos documentos dos meus primos e tios daqui a quinze dias. Eles devem ter alguma espécie de fetiche obsessivo com os quinze dias. Jurei de pés juntos que levaria assim que pudesse e sumi dali para nunca mais voltar.

No dia seguinte me encontro com a minha mãe para irmos juntos ao cemitério levar a autorização que a Emlurb me deu para mexer no túmulo e, por minha vez, autoridade titular que agora sou, dar a minha autorização para o pedreiro botar a pedra, o carvoeiro dar o carvão, o ferreiro dar o ferro, o sapateiro dar o sapato, a vaca dar o leite e o gato soltar meu rabo.

-Bom dia, nós queremos botar uma pedra no túmulo do meu marido, e o meu filho aqui já tem a autorização da Emlurb.
-Certo. Tem que preencher esse formulário e preencher esse termo de autorização com o nome e identidade do pedreiro que vai botar a pedra.
-A identidade do pedreiro? Minha senhora, como vou saber a identidade do pedreiro? Só o nome não serve?
-Não. Tem que pagar essa taxa e ele tem que trazer esse comprovante de pagamento junto com a identidade quando vier botar a pedra.
-Engraçado, quando foi pra quebrar o túmulo e enterrar, não precisou de tanta burocracia. Quer dizer que se pode enterrar quem quiser a qualquer hora, mas pra botar uma lápide é esse inferno?
-Pra enterrar tem que ser mais rápido, já que está morto, não se pode esperar muito, não é mesmo? Mas quando foi que aconteceu o enterro?
-Ah, o último dos que estão lá já faz quase três anos.
-Pois é, como nesse tempo estava muito desorganizado, todo mundo mexia como queria, de uns três anos pra cá, que foi quando eu entrei, começamos a controlar mais rigorosamente.

Bem que minha mãe sempre alertava que estávamos demorando demais com o túmulo daquele jeito, coração de mãe não se engana. Nisso chega o gerente do escritório administrativo do cemitério. Pelo menos era o que estava escrito no crachá dele. Aí eu resolvi falar também.

-Posso ajudar?
-Meu amigo, pelamordideus, nós estamos querendo botar uma lápide nesse túmulo que está escrito nessa autorização da Emlurb, eu já sou o titular do túmulo, e ela agora está dizendo que precisa até do número da identidade do pedreiro. Lá na Emlurb já me deram a maior canseira, vamos ver se a gente consegue desenrolar essa coisa mais rápido.

O gerente, um senhor magro e ossudo, como convém a um gerente de cemitério, fez uma longa pausa olhando o documento por debaixo dos óculos, com um ar gravíssimo.

-Avemaria, pela demora em responder, lá vem mais complicação!
-Calma, eu não posso responder sem antes analisar. Depois amanhã o seu pedreiro chega e não pode botar a pedra, e aí não vai adiantar nada.
-Tem razão, pode analisar à vontade, durante todo o tempo que for necessário.
-Ainda por cima eu não estou com a cabeça muito boa hoje, estamos tendo aí, agora mesmo, o enterro de um bandido muito perigoso que foi assassinado, e temos que fazer tudo com muito cuidado, pois a corja dele é que veio enterrar, e queremos evitar qualquer problema.
-Nossa, o senhor realmente tem muita coisa pra se preocupar.
-Esse pedreiro é da família?
-Hã? Como assim? Ah, sim, não, não, ele não é parente, mas é ele que sempre faz esses serviços pra família. É o nosso botador oficial de lápides já há várias gerações.
-Não precisa de identidade. Quando ele chegar amanhã mande ele falar comigo.
-Sim senhor, muito obrigado.
-Pode pagar a taxa a mim mesmo. A moça que recebe foi almoçar. São doze reais e setenta centavos.
-Tenho aqui uma de dez... duas de dois... uma de cinqüenta.
-Deixe doze, os setenta centavos ficam por minha conta.
-Então muito obrigado. Amanhã basta ele falar com o senhor, não é?
-Basta falar comigo.

Saímos do cemitério de alma lavada, e de corpo também, porque chovia a cântaros, e fomos dar uma olhada no meu novo apartamento, do qual a minha mãe seria a fiadora. Quando procurei a pasta com os documentos de fiadora que minha mãe tinha me trazido, canto mais limpo, tinha esquecido no escritório administrativo. Volta o enterro pra porta do cemitério.

-Esqueci uma pasta cinza aqui, não sei se vocês viram...
-Ah, sim, eu guardei. O gerente ainda tentou alcançar vocês, mas o carro saiu rápido e estava chovendo muito. Olha, a moça do caixa que recebe a taxa chegou do almoço...

A moça-do-caixa-que-recebe-a-taxa começou a falar e a datilografar, invisível como um malassombro por trás de um vidro espelhado.

-Tic, tic, tic, tic, tic, seu nome e identidade, por favor.
-O quê?!? Nããão, isso já foi resolvido! Amanhã o pedreiro vai falar com o gerente!
-Tic, tic, tic, tic, tic, quem está enterrado no túmulo?
-É o meu pai!
-Tic, tic, tic, tic, tic, data da realização do enterro?
-Não sei! Eu só tinha um ano de idade, não me lembro de nada!!!

O gerente, em seu horário de almoço, não poderia me livrar desta vez daquela hidra de sete cabeças, que quando se corta uma aparece logo outra em seu lugar.

terça-feira, abril 17

PANEGÍRICO DO PÃO

Semana passada, quarta-feira, meianoitemeia, redação, bate a fome. Pergunto a Jair do tratamento de imagem se tem alguma coisa na budega do Bita pra se beliscar. Ele sumiu nas trevas do laboratório fotográfico e voltou com um pão. Um simples e puro pão, puro no sentido também de não ter nada dentro, só pão, sem manteiga, mortadela ou queijo. Era um pão que parecia um pão doce, mas não era doce, entre retangular e arredondado, e bem tostado. Delicioso pão. Jurei aos meus deuses que no dia seguinte eu ia comprar daquele pão, porque a padaria dos portugueses aqui perto de casa, que apesar de ser padaria e ser de portugueses, não faz pão que preste. Eu sabia vagamente onde Bita comprava aquele pão, era numa merceariazinha perto de uns edifícios de frente pro Rio Capibaribe e Oceano Atlântico, que sempre que eu passava por lá no meu jogging mensal ficava enchendo o saco dos porteiros, perguntando se tinha apartamento pra alugar, pra vender, quanto era o condomínio, etc. e nunca tinha nem pra alugar e nem pra vender, quem tem não sai, e quando alguém sai já aluga no outro dia, me repetiam os porteiros em uníssono.

Não tinha pão, mas tinha apartamento. De frente pro rio e mar. Décimo sétimo. A dona era uma mulher, e já tinha uma mulher na minha frente pra alugar, só se ela desistisse. Fui ver assim mesmo. De fato era apartamento de mulher para mulher, todo cheio de minúncias e praqueissos, tetos de gesso rebaixados com iluminação indireta, essas coisas. O porteiro da vez me deu o celular do outro porteiro, que era quem estava cuidando dos contatos dos aluguéis, e ele disse que a coisa estava quase fechada com a mulher que queria alugar. Quase. Isso na quinta, na sexta e no sábado fiquei ligando pra confirmar se eu tinha chance ou não com aquele tão cobiçado apartamento, e nada do desgraçado atender. No domingo à noite escapuli do jornal e fui pessoalmente na portaria acabar de vez com aquela agonia. Fui me aproximando e tinha um cara deixando o cartão com o porteiro e dizendo pra qualquer coisa ligar pra ele. Fui prevendo o pior: a mulher tinha desistido e alguém tinha chegado de novo na minha frente.

Nem uma coisa e nem outra. A mulher não desistiu, e aquele cara era proprietário de um apartamento no décimo andar, também de frente pro crime, e estava alugando. Subi com ele, olhei o apartamento bem básico, de homem pra homem, mais barato do que o do décimo sétimo, aluguei e me mudo em breve. Nem só de pão vive o homem.

domingo, abril 1

Or Sai Chi L'onore

Mas o que vale é que existe a música de Mozart. O que mais importa?

Donna Anna finalmente acredita na histérica difamação de Donna Elvira, quando, num lance de sorte, ela reconhece em Don Giovanni o assassino do seu pai. Após narrar num dramático recitativo num dueto com o seu marido Don Otavio como foi a tentativa de estupro que culminou no duelo no qual o seu pai levou a pior, ela o incita à vingança cantando a ária "Or Sai Chi L'onore".

Uma ária curta e relativamente fácil, sem grandes pirotecnias como as da Rainha da Noite na Flauta Mágica. Mas o que temos aí é o máximo em sublimidade a que a Música, com um "M" bem grande, pode chegar. Supera a dramaticidade do enredo, abstrai de qualquer coisa mesquinha e terrena e se lança no espaço angelical. Pode ser ouvida como música pura, sem interferência de tempo ou espaço. Um universo paralelo independente e perfeito, intocável e intocado.
De arrebatar e arrepiar a alma.

GOOD MOON RISING

Sabe aqueles dias que dá tudo ao contrário pelo avesso do que você esperava? Pois foi ontem, só que para melhor, que eu também sou fidideus.
Já que eu tinha marcado com Bad Moon Rising pra se encontrar no Central pra tomar uns cafezinhos e chopinhos e fazer a nossa D.R. na base do olhos-nos-olhos-quero-ver-o-que-você-diz, aproveitei e marquei também com a esposa de Xandinho pra entregar a grana da bilheteria e me livrar de uma vez por todas, para sempre e amém, desses surtos de produtor de shows.
A cereja do bolo que eu estava imaginando era ela dizer, ao saber da quantia: "-Só isso?"; e, claro, ficaria subentendido que eu teria afanado uma parte. Mas primeiro ela disse:
"-Eu não sabia que a bilheteria ia ser nossa..."
Claro que ia ser vossa, imagina se eu ia sequer tentar imaginar em repartir o dinheiro com as 12 bandas em pleno show. Miguel na cova dos leões. E ao saber da quantia:
"-Tudo isso?"

O gosto da vitóóóóriaaaa, Kolyyyynos! Aaaahhhhhh...!
E ainda:
"-Você não quer uma parte pra cobrir os seus custos, o que você investiu?"
Não, não, não tive custo nenhum, não investi absolutamente nada. Tudo e todo seu, aliás, eu acho até que deu mais, mas sabe como é aquela bilheteria misteriosa lá no Burburinho, né, ah, sim, claro que sei, freguesa antiga.
Sonrisal. Tsssshhhhhhhh... alívio imediato.

E Bad Moon Rising, bem, she wasn't that bad after all...

QUOTH THE RAVEN: NEVERMORE

Existe concurso pra estupidez e burrice assim no sentido de procurar sarna pra se coçar, procurar encrenca, flertar com o desastre? Porque se existir, podem tirar o cavalinho da chuva e não se inscrevam, eu sou imbatível. Talvez só perca pro meu caro amigo Ronaldo que trabalha comigo lá no jornal, mas aí também já é covardia, ele geralmente nem procura, o desastre vem sem ele chamar mesmo.

Me refiro ao Burbstock parte 2. O primeiro Burbstcock, que foi um show que reuniu oito bandas, foi uma brincadeira da minha antiga banda pra arrecadar fundos pro Burburinho comprar um som novo, que o que tinha lá era uma porcaria e não tinha retorno, em todos os sentidos. Funcionou, porque o Burburinho agora tem um som melhor, mas o que me encheram o saco no dia do evento não tá no gibi. Porque as bandas levam a brincadeira a sério. E querem tocar como se não houvesse amanhã e dessa apresentação dependesse o futuro da música e da humanidade. E todas querem tocar no meio, ninguém quer tocar no início ou no final. Sem dúvida um problema facílimo de resolver, como se dois corpos pudesse ocupar o mesmo lugar no espaço. Até um dos membros da minha própria banda me encheu o saco, logo ele que deveria estar organizando também.

Pois não é que eu inventei de fazer um segundo evento desses, e dessa vez com doze bandas? Qual é o meu problema? Masoquismo latente? Imbecilidade crônica? Otimismo panglossiano?
E dessa vez com o agravante de ser um tributo a Xandinho, que é o cara que toca cover de rock há mais tempo aqui no Recife. Agravante porque, no meio da confusão de mal-entendidos, Xandinho terminou nem tocando.
Resumindo, pra não chatear ainda mais a minha imensa legião de sete leitores, se no primeiro evento eu feri suscetibilidades e me encheram los cujones, multiplique tudo por dois no segundo. Só posso esperar que esqueçam o mais rápido possível dessa minha demência e ficar batendo a cabeça na parede repetindo como o corvo do poema de Edgar Allan Poe: nunca mais, nunca mais...