quarta-feira, junho 1

LE LION CÉST LE ROI DES ANIMAUX

Faz tanto tempo que não escrevo  nada aqui que ficarei muito surpreso se o blog ainda me reconhecer e me deixar postar alguma coisa. Não faço ideia porque parei de escrever. Ainda cisquei uma volta não muito triunfal em 2010, mas, como o leão da piada da aula de francês, que foi urrar e desanimou, disso não passou. Mas vamos ver se agora vai, uma vez que, à semelhança de 2010, tropecei de novo no blog nas minhas andanças pela internet e deu saudades desse pequeno porém sincero Lago de Narciso. Comecei a me reler e surpreendi-me rindo comigo mesmo, ainda que, e talvez porque, devido ao hiato entre a escrita e a releitura, fica parecendo que estou lendo uma outra pessoa. Danei-me a mandar excertos do blog pra parentes e amigos, como se estivesse a recomendar no Facebook um escritor predileto que tivesse não recentemente falecido, mas ressuscitado. Pode ser até mesmo que o advento do Facebook tenha canalizado as minhas veleidades litero-escritoreiras para escrevinhamentos mais furiosos e menos edificantes, porém quero crer que atualmente necessários, e por isso o nosso Blogart tenha ficado encostado por tanto tempo. Mas voltei, agora que o Facebook perdeu a graça de vez e virou meramente um palanque para o politicamente irritante dos imbecis que agora têm voz, aqueles profetizados por Umberto Eco. Blogart, aqui me tens de regresso, e suplicante te peço a minha nova inscrição.

sábado, agosto 21

Hã?!?

Aterrisei aqui por acaso, o link abriu no computador do JC, que há milênios tinha bloqueado blogs, messengers e afins. Me pegou tão de surpresa que fiquei sem palavras. Como estou comprando um computador novo, finalmente, breve estarei postando novos maravilhosos, divertidíssimos e fenomenais textos aqui para a imensa alegria de Socorrinha e Elis, que são as minhas duas ilustríssimas e assíduas leitoras. Tentarei reconquistar os leitores perdidos, como Furriel e André Pinto. Quem viver verá, vini vidi vince.

sexta-feira, março 20

GATO ESCONDIDO COM O RABO DE FORA

Estava eu checando os meus recados no Orkut quando vi no perfil de uma amiga a tal previsão que Marx teria feito sobre a atual crise mundial:

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado".
Karl Marx, in Das Kapital, 1867.


Apesar de já ter lido "O Manifesto Comunista", de Marx e Engels, que é fininho, confesso que nunca li "O Capital" todo, só me aventurei por umas já esquecidas poucas e áridas páginas do famoso tijolaço. Mas achei essa profecia perfeitinha demais, muito parecida com aquelas citações apócrifas que circulam todos os dias pela Internet, atribuindo frases e até longos e edificantes discursos a Arnaldo Jabor e Luís Fernando Veríssimo. E o fato de Marx ter atribuído tanta importância à tecnologia, pondo-a em pé de igualdade com as outras commodities, isso em pleno alvorecer da Revolução Industrial, me deixou com mais pulgas ainda atrás da orelha. Nem Nostradamus em toda a sua glória!
Fui cascavilhar e não deu outra: era um gato escondido com o rabo de fora...

http://libertarianismo.com/index.php/menuartigos/blog/433-a-mentira-que-karl-marx-nunca-disse

http://marcondesviana.blogspot.com/2009/02/karl-mark.html

sábado, janeiro 17

THE BOOK IS ON THE DIGITAL TABLET

Não tive filhos, não transmiti à nenhuma criatura o legado do meu DNA com tendências obesas. Mas tenho sobrinhos e sobrinhas e uma afilhada, sai mais barato e é mais divertido. E eis que a minha afilhada Nanda, de tanto ler a coleção completa de Harry Potter que dei pra ela, surtou de ir pra Londres. Morar, passear, ou nem que seja botar o pé no aeroporto e voltar, qualquer coisa que a faça respirar o mesmo ar londrino e mágico do pequeno aprendiz de feiticeiro. Prometi a ela que enquanto vivo fosse trabalharia sem medir esforços para que ela consiga o seu intento. Quando eu emprestar a ela o dvd de "Passagem para a Índia" provavelmente desistirá.

Mas como estou de férias e acordando mais cedo pra passar mais tempo sem fazer nada, resolvi ir numa Cultura Inglesa pra saber preço de curso pra adolescente. A moça me atendeu muito bem e me mostrou as dependências do curso, as salas com cadeiras em círculo e um quadro-negro branco que eu pensei que se escrevia com pincel atômico, e fui logo pegando um pra me amostrar desenhando algum cartum pra ela. O pincel atômico era um mouse pen, e o quadro-branco um imenso digital tablet, e tinha acesso ao Google e tudo o mais. Não é à toa que nunca mais nenhum curso de inglês me contratou pra desenhar cartazes do tipo "the book is on the table".

O preço era menor do que eu esperava, mas mesmo assim meio salgadinho para as atuais circunstâncias. A moça, querendo que eu me matriculasse também, me disse que no outro dia estariam aplicando um "placement test" de graça, que era uma prova dos noves pra saber em que nível de inglês o freguês se encontrava. Ora, de graça até ônibus errado, e eu não estava exatamente com uma agenda apertada. No outro dia eu estava lá britanicamente às cinco da tarde pra tomar o meu chá de inglês. Eram quarenta questões mais uma redação. Eu nunca fiz curso de inglês fora do colégio. O inglês macarrônico que balbucio aprendi na marra quando morei alguns meses em Nova York em 1982. Das quarenta questões acertei trinta e sete. De 37 a 40 eu era um "Express Master". Quarenta cravados, um "Master Plus". Ou seja, só faltavam dois semestres pra eu acabar o curso. Nada mau para um ex-maloqueiro do Harlem.

sexta-feira, novembro 28

IDENTIDADE BOND

Acho que agora finalmente peguei a manha desse novo James Bond galego. O projeto foi audacioso, eles quiseram começar do zero, mas do zero mesmo, até mesmo antes do zero. Começaram com Bond ainda meio estagiário no serviço secreto, um reles cão de caça, incansável porém bruto. Agora ele já está sendo domado aos trancos e barrancos por M e provavelmente no próximo já vai estar começando a dizer as proverbiais gracinhas bondianas. Levarão de três a quatro filmes pra lapidar e polir o diamante. A deixa foi o drink: no primeiro, Casino Royale, ele diz que não se importa se é shaken ou stirred (-Do I look like I give a damn?). No segundo, quando está enchendo a cara de cachaça no avião, ele já está criando a fórmula do famoso martini shaken-not-stirred, e com uma casquinha de limão. E tanto ele falou na tal da Vesper nesse Quantum of Solace que é claro que quando finalmente ele for batizar o drink no terceiro, adivinhem qual será o nome. É uma espécie de prequel, como fizeram com Star Wars. Menos mal, esse bond cangaceiro corisco diabo louro já estava me dando nos nervos.

sexta-feira, outubro 31

O CASO DO ROUBO DAS CASTANHAS QUEIMADAS

Por causa da queda das bolsas, metade do dinheiro que estava destinado para a compra do meu apartamento ficou se esvaindo pelo ralo, visto que era FGTS aplicado em ações da Vale do Rio Doce. Um colega de trabalho me indicou um gerente da Caixa de Igarassu, que era amigo de infância dele e que o tinha orientado na compra da sua casa própria, para me dar orientações pertinentes sobre o assunto.

Lá vou eu portanto para Igarassu, onde recebi de fato orientações pertinentes e outras um tanto impertinentes, e na saída errei o caminho, em vez de voltar pro Recife, fui em direção a Itamaracá. Notei o erro, mas como não tinha nada pra fazer naquele momento, fui indo pra ver a paisagem e no que é que dava. A estrada era bonita e arborizada, cheia de bambuzais nos lados, e de repente me invade as narinas um cheiro de castanha assando. Me trouxe reminiscências da infância, e assim que avistei a fumaça parei no acostamento.

O vendedor de castanhas também vendia côco, e como era hora do almoço e estava muito quente, resolvi tomar um bem geladinho. Ele disse que o saquinho de castanha custava dois reais, mas fazia três por cinco. Eu tinha exatos cinco reais na carteira, e como já estava bebendo a água do côco, ele resolveu deixar fiado pra me vender mais castanhas.

Essas castanhas de beira de estrada são as melhores, porque ficam com um gostinho meio que de defumadas, e sempre o cara que assa erra um pouco o ponto e queima algumas, o que dá um sabor todo especial. Perguntei se já era tempo de caju, e ele disse que ainda não, aquelas tinham vindo do Ceará. O que tirou um pouco do encanto e da autenticidade, mas pelo menos era ele mesmo que assava e quebrava a casca.

A água de côco que entrou reivindicou espaço na bexiga, e tive que ir verter o excesso numa árvore mais escondida indicada pelo vendedor. De volta, topei com a mesa tosca e rústica na qual ele quebrava as castanhas, e tinha um lote de muito queimadas que ele julgou que a clientela não iria aceitar, e estavam espalhadas pela mesa, certamente esperando pra ir pro lixo. Ora, se são as que mais gosto, recolhi todas e já ia mandar botar no caderninho recém aberto, esperando, é claro, que ele me dispensasse do pagamento com um sorriso de piedade pela minha excentricidade.

Mas ele já estava atendendo a outro carro que tinha parado, uma grande família com crianças, genros e sogras. Fiquei acanhado de divulgar a minha excentricidade pra tanta gente, e botei as castanhas queimadas no bolso e fui embora sem ser notado. Quando for pagar o côco, na minha próxima consulta ao oráculo da Caixa de Igarassu, comunicarei o roubo e implorarei por misericórdia.

terça-feira, setembro 30

THE POWER OF THE DARKEST SIDE

Digite 9/11 no Google. Você vai ficar estarrecido com a quantidade de sites que defendem a tese de que a queda das Torres Gêmeas foi uma grande farsa para justificar as invasões no Afeganistão e no Iraque, que os EUA já planejavam faz tempo. Ou seja, elas não caíram, mas foram na verdade demolidas.

Tem muita coisa nebulosa e não esclarecida. Não tem nenhum boeing no gramado do Pentágono, só tem um incêndio e um buraco na parede. Tá mais pra míssil terrestre. Foi o que as câmeras de segurança dos hotéis da vizinhança filmaram e a imprensa calou.

O avião da Filadélfia, aquele tal dos heróis que se rebelaram contra os terroristas, se evaporou no ar, não deixou nenhuma fuselagem, bagagem, corpos e nem caixa preta no chão. E pegaram logo Oliver Stone, o diretor de JFK, pra fazer o filme sobre esses heróis. Hum...

As Torres Gêmeas, essas sim, com colisão de aviões, caíram todas bem certinhas, como uma implosão programada. E o WTC-7, aquele prédio do complexo World Trade Center que ninguém deu muita bola pra ele, aquele menorzinho de "apenas" 47 andares, caiu também bem certinho e comportado do mesmo jeito, sem avião nenhum bater nele. Solidariedade? E cá pra nós, você já ouviu falar de algum edifício que tenha desmoronado com um incêndio nos andares de cima?

Resumo da ópera: a indústria bélica americana, que é quem manda no país de verdade e que mandou assassinar Kennedy em 1963 porque ele queria tirar as tropas do Vietnã, repetiu a dose. Mandou Bush aterrorizar a mídia com o "Ato Patriótico" e a orwelliana política de "Homeland Security", e fez uma grande fanfarronagem com esses "atentados" pra ganhar a opinião pública em favor das guerras.

Se você acha isso monstruoso demais, acorde, é só uma questão de ponto de vista civil e militar. Mais monstruoso ainda foi ficar mais de dez anos mandando jovens pro matadouro do Vietnã, uma guerra que sabiam que iriam perder. Só pra marcar posição contra o comunismo, entende? E essa autoflagelação terrorista não é nenhuma novidade, Hitler fez isso na Alemanha pré-guerra incendiando o Reichstag. Mas ele foi mais bonzinho, incendiou à noite, quando não tinha mais ninguém...

http://www.ae911truth.org/

http://www.ae911truth.org/info/6

http://www.voltairenet.org/

http://www.911truth.org/

http://www.911truth.org/article.php?story=20041221155307646

http://www.911truth.org/index.php?topic=resources

http://www.youtube.com/watch?v=8n-nT-luFIw&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=JZekosYOmXc&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=paWiZ2Y8fRg

http://www.journalof911studies.com/

http://resistir.info/11set/new_study_p.html

http://www.amazon.fr/11-Conspiracy-Scamming-America/dp/0812696123?ie=UTF8&s=english-books&qid=1183331016&sr=1-2

http://911scholars.org/

domingo, agosto 31

CLARO QUE SABIA

Você sabia que o revezamento da Tocha Olímpica com diversas pessoas surgiu em Berlim em 1936?
-Isso porque Hitler era um verdadeiro democrata.

Você sabia que o jumento consegue tomar 22 litros de água em 2 minutos?
-Ou seja, em dois minutos ele toma um garrafão Indaiá e ainda fica com sede. Isso é que é uma jumentice!


Você sabia que durante uma partida de futebol um jogador corre em média de 10 a 13 quilômetros?
-E às vezes nem gol fazem.

Você sabia que queimamos cerca de 63 calorias enquanto dormimos?
- O que é uma injustiça, deveríamos queimar muito mais.

Você sabia que a superfície da língua tem 9.000 detetores químicos?
-Também conhecidas como papilas gustativas?

Você sabia que o nariz humano pode perceber 6.850 cheiros diferentes?
-No momento, o meu está entupido e só percebe o último dígito desse número.

Você sabia que as abelhas se comunicam através do movimento das asas?
-Quem disse que elas só fazem voar e fazer cêra?

Você sabia que, assim como muitas aves, o casal de corujas fica junto para o resto da vida?
-Isso porque as corujas não constroem ninhos e nem falam muito. Queria ver só o corujo agüentar muito tempo com a coruja reclamando sobre a posição do sofá e as cores da parede.

Você sabia que os caracóis podem dormir por 3 anos sem acordar?
-O danado é notar a diferença de quando eles estão acordados.

Você sabia que o Esperanto é uma língua universal?
-O único defeito é que ninguém fala.

Você sabia que a sucuri já nasce com cerca de 1 metro de comprimento?
-Cerca de 63 calorias, cerca de 1 metro. Tão pouquinho, por que não contou e nem mediu?

Você sabia que as fêmeas do urso panda são férteis apenas 3 vezes por ano?
-Vai ver é por isso que estão sempre à beira da extinção.

Você sabia que a fêmea do louva-a-deus come a cabeça do macho durante o acasalamento?
-O amor sempre nos faz perder a cabeça.

Você sabia que a hibernação de um urso polar pode durar de 4 a 6 semanas?
-Se ele tiver apnéia obstrutiva do sono não dura nem 6 minutos.

Você sabia que a distância entre a Terra e o Sol é cerca de 149,6 milhões de quilômetros?
-Cerca de 149,6 é de lascar! É a cerca mais exata do universo. Por que não cerca de 150 milhões de quilômetros? Pelo menos justificaria a cerca. Não, não sabia não, e agora que sei, tratarei de esquecer o mais rápido possível, para não ocupar mais espaço ainda no HD do meu cérebro com tanta inutilidade.

Pois não é que a Claro resolveu entupir a minha caixa postal de recados do celular com essas pérolas inefáveis? E ainda me cobram por isso no fim do mês. Ou seja, eu estou pagando para ser chateado. Já reclamei e eles prometeram parar e me devolver o dinheiro nas próximas contas. Agora me chateiam mandando o número do protocolo da reclamação.

"Quiz Premiado", é como eles chamam essa baboseira. Pessoas ganham laptops e televisões LCD. Como eu nunca participei, só ganhei músicas e imagens para o meu celular num site aí, as quais eu nunca fui e nem irei buscar.

E nem ao menos zelam pela credibilidade das informações, ou seja, tudo o que você leu até agora pode ou não ser verdade. Como da vez que mandaram uma dizendo:

Você sabia que Elvis Presley serviu no exército americano na Alemanha na II Guerra Mundial?

O exército americano deveria estar desesperadamente precisando de infantaria, uma vez que, nascido em 1935, Elvis, na melhor das hipóteses, teria dez aninhos de idade no final da guerra em 1945. As antas confundiram com o tempo que Elvis serviu numa base americana na Alemanha Ocidental em 1957 durante a Guerra da Coréia. E que foi exatamente a única vez que Elvis esteve na Europa, que para azar dos europeus, nem fez show nem nada. Mas, quem sabe, precoce do jeito que era, talvez ele tenha ido de fraldas e chupeta aos jogos olímpicos de 1936 em Berlim pra ajudar no revezamento da Tocha Olímpica.

quinta-feira, julho 31

MORCEGOS, DEMÔNIOS E TUBARÕES

O novo Batman, o segundo da série realista-a-la-Frank-Miller, renova a fé que o público está preparado para se submeter a tudo, inclusive uma "suspension of desbelief" às avessas. Ou seja, que dá pra fazer um filme com uma abordagem séria e existencial com um super-herói de máscara e capa. E de morcego.

No quadrinho do Demolidor, Frank Miller, o atualizador de super-heróis, põe Matt Murdock a antecipar a indagação da namorada, e explica que a fantasia de demônio, pois ele é Daredevil em inglês, serve para assustar e pegar de surpresa os larápios. No "Cavaleiro das Trevas" Miller também passa o tempo todo nas entrelinhas querendo justificar essa estranha mania de Bruce Wayne. A essas alturas do campeonato não cabem mais explicações, uma vez que a única razão que Miller recebeu a encomenda da renovação dos roteiros da Marvel e da DC foi o fato dos justiceiros em questão serem super-heróis consagrados, e para tal eles têm como obrigação contratual de se vestir de maneira diferente.

Ironicamente, a abordagem mais séria sobre o Cruzado de Capa continua sendo o seriado de televisão dos anos 60, que era quase uma sátira dos quadrinhos, e piscava o olho a todo tempo para nós pequenos telespectadores com os seus POWs, SOCs e BONCs. Ao menos respeitava a fantasia delirante que era alguém sair vestido daquele jeito para espancar bandidos.

Os primeiros Batmans do cinema fizeram um mezzo mussarela, mezzo calabresa, seriedade com gracinhas. Zera tudo e começa a fase Miller com o Batman Begins, que é na verdade o início do "Cavaleiro das Trevas", título desse segundo. Mas o filme é bom, porque pelo menos existe um território ético reconhecível em comum com as personagens ao qual podemos nos reportar. Em Sin City, onde os super-heróis são de fabricação caseira do próprio Miller, o vale-tudo amoral se torna cansativo mais ou menos aí pela metade do filme.

Vem aí o novo 007 do galego-cangaceiro Daniel Craig, e tem nome escalafobético: Quantum of Solace. Acho que eu já disse aqui que esse corisco-diabo-louro tem mais cara de vilão do que de Bond. Em "Estrada para a Perdição" ele está perfeito no papel de mafioso mais canalha do que Capone. Escolha desinfeliz essa de tirar Pierce Brosnan. Mas se tinha de tirar, seria melhor ter botado vovô Sean Connery de volta do que esse Danny boy. Qualé, fizeram pesquisa de mercado? Alguém deveria ter alertado ao cara do cast que James Bond "is tall, and he is dark, and like the shark, he looks for trouble, that's why the zero is double...". Dark, no sentido de cabelo preto como as asas da graúna, e tall no sentido de elegante. Pra mim, assim como Val Kilmer como Batman, não colou. Por favor, não mudem o lay-out dos nossos heróis!

Mas justiça seja feita: pelo menos, da letra da canção, sobrou para Craig o "like the shark"...

domingo, junho 15

ARS GRATIA ARTIS

ARS GRATIA ARTIS, arte gratuita, arte pela arte, arte não engajada, a quimérica inscrição na vinheta do Leão da Metro, que na minha humilde arrogante opinião deveria ser o lema de todos os estúdios cinematográficos. Quimérica porque há controvérsia, há quem diga que não há arte desengajada. Mas isso é assunto para beber muitas cervejas em acirrado debate com a sofisticada e iluminada mente de Roma, o nosso guitarrista solo da Creedence Cover.


De qualquer forma, sábado cheguei cedo em casa, depois de ir pro aniversário da avó de Michel, o nosso baixista, e botei no dvd nada mais nada menos do que "Os Dez Mandamentos". Três horas e meia deveriam ser suficientes para me dar sono. Com overture, intermission e exit music, tudo a que tem direito uma longa superprodução dos anos 50. "Doutor Zhivago" e "E o Vento Levou" também têm essas bossas.


Era um filme obrigatório em época de Semana Santa nos meus tempos de menino. Como não existiam videolocadoras e nenhuma emissora de tv ousava botar no ar um filme tão longo (pelo menos não aqui no Brasil: em "Contatos Imediatos do III Grau" os filhos de Richard Dreyfuss o assistem na sessão da tarde), era a única oportunidade de rever a cena mais espetacular jamais filmada em todos os tempos, que era, claro, a abertura do Mar Vermelho. Abertura e fechamento em cima das carruagens do filho da puta do faraó. Eu até pensei que agora iria achar o efeito especial risível, mas não, ainda me faz, e fez, ficar boquiaberto. Continua sendo, portanto, porque foi filmado mesmo de verdade, e não gerada em computador. Em 1956 a mãe de Bill Gates ainda era uma adolescente que começava a suspirar por Elvis, recém saído do anonimato.

Mas eis que, à semelhança do cajado de Moisés que turva as límpidas águas do Nilo com sangue, uma sombra se espalha pelo filme como a névoa da morte pelas rua do Egito. Antigamente, quando o filme era muito importante, o próprio diretor aparecia no trailer para apresentar o filme. Hitchcock fez isso no trailer de "Psicose". Cecil B. DeMille, não satisfeito em apresentar o trailer, arvorou-se também a apresentar o filme. Sai de trás de uma imensa cortina, e, reconhecendo ser um procedimento incomum, faz um pequeno discurso de abertura depois da tal música da overture. Pelo menos no meu dvd, não me lembro dessa faceta do véio no cinema. Vai ver cortaram aqui no Brasil, era vaia na certa. Depois de um blábláblá sobre os historiadores antigos que ajudaram a compor a história da juventude de Moisés, ele diz que o tema do filme é o nascimento da liberdade. Se os homens devem ser governados pela vontade de ditadores, no caso Ramsés, ou pela lei de Deus. Ou se os homens são propriedade do Estado, no caso o Egito, ou se são almas livres, submissos só ao Senhor. E que essa questão ainda está em pauta hoje em dia, no caso a década de 50, o auge da Guerra Fria. Uma estocada evidente na Rússia comunista. E, claro, ele quer dizer subliminarmenteque os homens livres que não são propriedade do Estado são os que vivem nos Estados Unidos da América.

Ô, Cecil, meu véio, até concordo com você politicamente, pelo menos no que concerne à tutela do Estado, pois nem acho que a América seja lá essas pregas de Odete todas em matéria de democracia. Taí JFK que não me deixa mentir, sem falar no estranhíssimo sistema eleitoral para presidente. Mas não precisava estragar a inocência de um dos filmes mais puros e altruístas da minha doce infância. Assistir aos Dez Mandamentos era como participar de uma liturgia. Não se jogava saquinho de pipoca amassado na cabeça de ninguém durante a sessão. Saíamos, depois daquela sacrossanta maratona cinematográfica, de alma contrita e circunspecta, e demorava algum tempo até voltarmos a dizer palavrões uns com os outros.

A partir daí eu comecei a procurar chifre em cabeça de cavalo. Moisés, que quando soube que era hebreu e não egípcio, abandonou o palácio e foi trabalhar na lama com os escravos, passou a ser um concessão ao racismo étnico americano. Porque lá nos States, uma vez flamengo, flamengo até morrer. E eles transformaram Nefertiti em uma verdadeira quenga pra poder justificar que Moisés não livrou a barra do filho dela na passagem do Anjo da Morte. Farisaísmo puritano.

E tem também outras coisas, não relacionadas com a visão americana do mundo mas com a história em si, que o distanciamento provocado pelo discurso de Cecil me fez matutar. Por que raios Moisés não voltou à tribo de Ismael, que o acolheu tão gentilmente e lhe forneceu casa, comida, roupa lavada, cartão de crédito e até uma dedicada esposa, para incluí-los na caravana do êxodo em busca da Terra Prometida? Esse simples gesto de gratidão teria evitado a eterna guerra no Oriente Médio dos palestinos contra os judeus, e ainda hoje poderíamos visitar New York avistando ao longe, de cima da ponte do Brooklin, as imponentes Torres Gêmeas.

Uma outra coisa que o ceticismo me propiciou foi a crença que saquei o momento exato em que Spielberg teve a idéia do argumento do "Caçadores da Arca Perdida": na fala final de Moisés antes de se separar do povo, recomendando o que se poria dentro da Arca da Aliança. Essa pretensão minha foi um momento divertido, mas que o filme ficou pra mim com um indisfarçável ranço macartista, isso ficou. Não é à toa que Charlston Heston é hoje o presidente da National Rifle Association. Cruz credo, vade retro!

segunda-feira, maio 5

NINGUÉM MERECE ESSE OPALA

"Minha Vida Não Cabe Num Opala", último filme do sábado no Cine-PE, foi a pior metade de longa metragem de ficção que já vi na vida. Eu geralmente vejo filme ruim até o fim, pra ver no que vai dar, mas esse eu saí no meio, não consegui ver o resto. Até para os padrões brasileiros de excelência em ruindade, foi um recorde. Só não vaiei enquanto me retirava em consideração aos realizadores, que estavam na platéia. Mas me arrependi, deveria ter vaiado.

sábado, abril 26

A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS

Quando, depois de uns piripaques, o meu DVD finalmente pifou de vez, resolvi que era hora de fazer uma visita às oficinas em geral, de imagem, carro e som. Isso porque o meu CD também estava em greve geral. Mas na última testada antes de desconectar pra levar pra oficina ele resolveu voltar do coma por conta própria. Então só precisei levar o DVD no carro que também ia fazer uma visita ao médico, a propósita da beleta (sim, agora sei o nome).

Quando estava na oficina do DVD, me liga a minha amiga Sofia, me perguntando onde eu estava, e marcamos de nos encontrar na assistência técnica do DVD pra tomar um café no final da tarde, depois da peregrinação pelas oficinas.

DVD consertado (foi fácil e barato, era só trocar a fonte), toca pra oficina de carros, pra botar de volta a bendita beleta. O sol já se punha, e o ocaso já espalhava o seu manto purpúreo pelo céu que nos protegia (com licença, Bertolucci), e eis que, num sinal fechado de um cruzamento agitado de uma avenida principal, emerge das sombras, vagando errante na nossa frente, uma múmia envolta em gazes ancestrais e fétidas, só com a boquirrota boca de fora, segurando uma enorme bolsa de sangue coagulado com um tubo ligado ao seu corpo pútrido, à guiza de transfusão a céu aberto, e guiado por uma mulher que parecia ter saído direto das páginas de "Morte e Vida Severina".

Minha amiga cobriu os olhos com as mãos e soltou um grito: -Sangue de Cristo tem poder!!!

Creio ter ouvido na rádio CBN outro dia que existem ONGs agora interessadas em orientar a população a não dar esmolas em sinais de trânsito, para não perpetuar gerações e mais gerações de pedintes que deveriam estar nas escolas ou em albergues. Olha aí, existem ONGs honestas também. Eu mesmo ando evitando dar moedas a crianças que vendem pastilhas e lavadores de pára-brisas, a não ser quando estou bem-humorado e com algo a celebrar, que, a bem da verdade, não é tão raro assim, pois eu celebro qualquer coisa. E ainda uso a desculpa de pensar que eles pelo menos estão fazendo alguma coisa, prestando algum serviço, não estão meramente parasitando a misericórdia alheia. Me irrita quando simulam algum tipo de ferimento ou expõem ostensivamente algum aleijão, como se isso fosse impedimento para se ganhar a vida honestamente com o suor do próprio rosto.

Mas confesso que nunca tinha visto nada nem remotamente parecido, esse superou todas as expectativas. O cara parecia ter fugido de uma UTI para queimados em incêndios, ou sido atropelado por um trem desgovernado. A mulher, com a mão estendida de pedinte, o guiava por entre os carros como a um cego, pois ele tinha também os olhos vendados, e só não tateava na escuridão porque com a outra mão tinha que segurar a enorme bolsa de transfusão de sangue. Realmente agora a coisa está chegando às raias do teatro do absurdo, pois se aquele cidadão estivesse com metade do que aparentava, já teria morrido de infecção generalizada há muito tempo, ainda mais num trânsito caótico e fumacento daqueles.

Passado o susto inicial, quase que vamos nós próprios pra UTI de tanto rir, aceleramos pra oficina, trocamos a beleta e fomos para um café celebrar o fim do Dia-da-Volta-dos Mortos-Vivos, mecânicos e humanos.

domingo, abril 13

REBIMBOCA DA PARAFUSETA

Indoutro dia o meu carro começou com um barulhinho estranho na roda dianteira da esquerda. Barulhinho vai, barulhinho vem, fui adiando, e eis que um dia, ou melhor, uma noite, o barulhinho recrudesceu, virou um barulhão e travou a roda. E eu estava numa rua remota, em um dia de domingo bem tarde da noite, sem sinal de vivalma ao redor, posto de gasolina e oficina então nem pensar. Fui pra frente, dei uma ré, fiz uma reza, e depois de alguns ruídos de parafusos e porcas sendo passados num liquidificador e um estridente som metálico, a roda fica livre. Desci do carro e fui ver o estrago. Me deitei no chão e fui fuçar embaixo do carro. Aparentemente normal, o único estrago evidente era a grande mancha de lama na minha roupa. Foi quando eu dei fé de uma haste metálica de uns trinta centímetros a alguns metros do carro. Fui pegar pra ver se era alguma peça do carro que tinha caído. Estava quente, era. Pronto, agora deu. E como vou pra casa agora sem saber de onde veio essa peça, e muito menos recolocá-la de volta? Mas eis que veio um anjo do Senhor numa carruagem branca me socorrer e trazer a respostas para os meus temores. Dei com a mão, parei o táxi e perguntei se ele sabia o que raios vinha a ser aquela peça, e, claro, se eu poderia ir pra casa sem a presença da mesma nas entranhas do meu carro. Era uma haste sólida e cilíndrica, com encaixes redondos de borracha nas duas pontas. O taxista olhou, reolhou, mirou de encontro à luz de um poste, e finalmente disse que não fazia a menor idéia. Das duas uma: se um taxista não sabe o que é, ou não há de ser nada ou o caso é muito grave. Optei pela primeira opção e fui dirigindo, muito ressabiado, a 40 por hora no máximo de volta pra casa.

No outro dia fui numa oficina perto de casa e o mecânico me disse que se tratava de uma rebimboca da parafuseta. O nome não era bem esse, era um pouco menor, mas também terminava em "eta". Calma, maliciosos, não estou omitindo o nome da peça por pudor, é que eu esqueci mesmo. Só lembro que ele disse que tinha a ver com a estabilidade do carro, e que eu poderia andar normalmente, só iria perder um pouco a estabilidade na roda esquerda, que eu não fizesse nenhuma viagem longa, mas que pra rodar na cidade não traria maiores problemas. Desde então eu ando com esse cilindro metálico no painel do carro, que é pra me lembrar de ir mandar botar outra. Se os caras se deram ao trabalho de fabricar, deve ser importante para alguma coisa, afinal, fabricantes de carros não são chegados a adereços supérfluos, pelo menos não na parte mecânica. Toda vez que eu vou fazer uma curva para a direita, que é quando eu preciso de estabilidade na roda esquerda, ela fica de lá me olhando, só esperando o momento da tragédia, para finalmente me dizer:
-Eu não disse?

terça-feira, março 4

QUEBROU A CORRENTE

Dadas às intensas festividades de todo o mês de fevereiro pelo meu aniversário, entre as quais se inclui uma festinha aí que chamam de Carnaval, findei não postando em fevereiro, e eis que quebrei uma longa e fidelíssima corrente que vinha desde janeiro de 2005. Mas a razão mesmo foi que eu estou deliberadamente sem internet em casa, e lá no trabalho o Orkut e o Blogger são bloqueados. Terminei passando batido mesmo. Mas não há de ser nada, nos próximos meses postarei a bandeiras despregadas. Assim espero.

quarta-feira, janeiro 16

A VACA DEU BODE

Mas me senti plenamente vingado do "Godfather III" quando, procurando pelo original da caricatura de Virgínia (tava tão bem guardada que eu não sabia onde tava, Vivi...), encontrei uma revista MAD antiga justamente com a sátira do dito cujo. E desenhada por Mort Drucker, meu ídolo da infância. Nada como o humor extrovertido/
extravagante/inteligente/
sagaz/pateta/palhaço/rude/seco/sarcástico/
simpático e misterioso da MAD para lavar a alma de um cinéfilo revoltado. Ou para aplacar o terror também: recorri à sátira de "O Exorcista" para poder dormir no dia em que assisti esse clássico no cinema. Dá um desconto aí, galera, eu tinha apenas uns dez ou onze anos.



Mas não é disso que eu quero falar, como bem podem ver pelo título desse bilhete urbi et orbi. Hoje pela manhã, ao realizar a minha tradicional corrida mensal de São Nunca dia-sim-oito-não pelo Parque 13 de Maio, vi na esquina da rua do Central o cara que vende bode. Como Ana estava fazendo a sua visita semanal faxino-gastro-aleatória ao meu cafofo, comprei uma água mineral com gás, um cartão telefônico (que eu não sou besta de correr com celular, não tanto pelo ladrão, mas pela pentelhação: os chatos adivinham) e disse pra Ana vir comprar um bodinho pra fazer pro almoço.

Enquanto esperava Ana chegar com o dinheiro, entre outras tantas conversas de matuto, que eu fui logo exibindo o meu pedigree de Zona da Mata Norte, claro, o vendedor de bode me brindou com esta pérola: um amigo dele resolveu tomar literalmente o ditado que diz que casamento é como um cara que quer tomar um copo de leite e compra uma vaca. Pois o tal amigo fez exatamente isso: comprou uma vaca do vendedor de bode, que também vende bois e vacas, e botou no quintal da casa, à guisa de tomar romanticamente um leite fresquinho e quentinho todas as manhãs, leite direto do peito da vaca, o famoso leite mugido.

Romanticamente no sentido amplo, pois não creio que esse cidadão fosse casado, porque senão, entre as muitas gargalhadas que dei, daria outras tantas ouvindo como teria sido a reação da esposa. Como o vendedor de bode não falou da Dona Encrenca do distinto amigo, quero crer que ele não estava, pelo menos no momento do tresloucado gesto, enquadrado na parte metafórica do dito popular.

Pois ele ignorou solene e bovinamente os conselhos do amigo vendedor e botou a vaca no quintal. A casa dele não tinha quintal dos lados, só atrás, e só aí já foi um puxa pra lá e empurra pra cá de móveis e sofás pra poder a distinta madame adentrar o recinto e se recolher aos seus aposentos nos fundos da casa. E tinha o detalhe do capim, sem o qual as vacas recusam-se terminantemente a dar leite. O plano dele era usar a sua velha Belina pra ir recolher capim pela beira da estrada. Só que vaca come toda hora, e não esperou pelo outro dia, quando viu que o capim não vinha mesmo, danou-se a mugir madrugada adentro. Ele disse depois ao amigo que, um mugido de vaca faminta, assim de tão perto, equivale ao apito de um trem. Acordou a ele e a toda a vizinhança, que como já falei, era de parede, sem quintal de entremeio. Lá se foi ele buscar capim com a Belina, e como estava chovendo muito a Belina atolou. Ele teve que trazer o capim a pé. Faria qualquer coisa para não ouvir aquele mugido de novo no pé do ouvido.

Dias depois devolveu a vaca, que na saída, deu uma grande cagada bem no meio da sala. O vendedor de bode me disse que era melhor ele comprar um litro de leite a 100 reais todo dia, do que fazer o que fez. Quero crer que ele deva estar procurando uma esposa no momento.

quinta-feira, dezembro 27

OUTRAGEOUS!!!

Hoje eu assisti GODFATHER III só pra me lembrar o quanto eu odeio esse terceiro filme da trilogia. Aliás, como já disse aqui, não o considero o terceiro filme. A Família Coppola deveria ser enforcada em praça pública, começando por Sophia.

sábado, novembro 17

UMA ODISSÉIA TELEFÔNICA

E eis que não mais do que de repente me entra um vírus no computador e faz a seguinte gracinha: deixa eu ligar o computador normalmente, mas só aparece o papel de parede, nem ícones e nem barra de iniciar e nem mouse e nem nada mais. Tive que levar o hd pra formatar e reinstalar tudo de novo, claro.



Isto feito, notei que o meu discador da Velox não estava mais entre nós e tinha partido desta para melhor. Quando me mudei do Ébano para o Alfredão tinha vindo um cara da OI Velox pra fazer as extensões e conexões e deixou um discador na área de trabalho, esse mesmo que sumiu, mas que eu me lembre não deixou cd nenhum de instalação do discador.



Ligo pro 0800 da OI e uma gravação de uma voz feminina me manda digitar opções. Depois de alguns números chego a uma pessoa de verdade.
-OI, em que posso ajudá-lo?
-Hã, oi, é que eu tive que formatar o meu hd por causa de um vírus, aí quando liguei o computador agora notei que não tem mais o discador OI Velox, e aí estou sem o cd de instalação e sem poder acessar a internet banda larga.
-Qual o seu provedor, senhor?
-Provedor? Ah, é a OI mesmo.
-Então o senhor por favor entre em contato com o provedor OI Velox através do número etc. e tal.
-E eu não estou falando com o provedor?
-Não, esse é o serviço de atendimento OI.


Ligo pro etc. e tal e uma gravação de uma voz feminina me manda digitar opções. Depois de alguns números chego novamente a uma pessoa de verdade.
-OI Velox, em que posso ajudá-lo?
-É que eu tive que formatar o meu hd por causa de um vírus, aí quando liguei o computador agora notei que não tem mais o discador OI Velox, e aí estou sem o cd de instalação e sem poder acessar a internet banda larga.
-O senhor vai ter que reinstalar o discador através do cd de instalação.
-Pois é, mas não tenho o cd de instalação. Ou o cara que instalou não deixou um cd aqui, ou eu perdi esse cd na minha mudança e não sei onde está, o que vem a dar no mesmo.
-Mas sempre que a Velox instala o modem deixa um cd de instalação.
-Sim, mas eu não tenho esse cd no momento e não posso acessar a Velox sem o discador.
-Então nesse caso o senhor vai ter que entrar em contato com o nosso suporte técnico OI Velox através do número etc. e tal e tal.
-Esse não é o suporte técnico?
-Não, esse é o atendimento do provedor OI Velox.

Ligo pro etc. e tal e tal e falo com a gravação de uma linda e sensual voz feminina que, em vez de pedir pra digitar no telefone alguma opção, me manda dizer qual o problema. Era só o que faltava, as máquinas agora entendem o que a gente diz. Kubrick bem que profetizou isso com o HAL do 2001. Finalmente, depois de alguns breves mal-entendidos, a Srta. Hal me manda esperar pelo atendimento de seres humanos de verdade, que, estranhamente, vieram sem muita musiquinha de espera.

-Suporte técnico OI Velox, em que posso ajudá-lo?
-É que eu tive que bla bla bla...
-Nesse caso nós vamos ter que instalar o discador através do Windows. O seu Windows é XP?
-Não, é 98.
-Windows 98 não instala sem o cd. O senhor por favor entre em contato com o nosso setor de vendas através do número etc. e tal e tal e tal e peça pra enviar o cd de instalação.

Liguei pro setor de vendas e eles me pediram os olhos da cara e mais um século pra enviar. Quando eu disse que o cara não tinha deixado o cd aqui quando instalou, porque se tivesse deixado eu pelo menos me lembraria de como era a cara dele, do cd, digo, aí a moça me mandou entar em contato com o 0800 da OI, e o ciclo estava fechado. Fiz essa maratona durante toda a semana, que se repetiu todos os dias quase sem variação. Cheguei a ameaçar cancelar o Velox e eles me ameaçaram com uma multa igualmente olhos da cara. Já tinha me conformado que iria passar o feriadão sem internet, quando surgiu a luz no fim do modem. Ou melhor, não surgiu.

-Suporte técnico OI Velox, em que posso ajudá-lo?
-Bla bla bla bla bla.
-Verifique no seu modem quais as luzes que estão acesas.
-Só a POWER e a Ethernet.
-A ADSL está apagada?
-Está sim.
-Então desligue, ligue de novo pro suporte técnico, diga que a ADSL está apagada e solicite um agendamento da visita de um técnico.

Isso era na quinta feriado do dia 15, quase dez horas da noite, e eu liguei de novo só por ligar, porque é ruim que um técnico viria numa sexta-feira de um imprensadão, ainda mais eu ligando aquela hora.

No outro dia de manhã veio um técnico, trouxe grátis o cd de instalaçao, instalou o discador e ainda botou um antivírus. Simples assim.

domingo, outubro 21

PINGOS NOS IS

1-O impacto de "Tropa de Elite" deve-se fundamentalmente ao fato de terem usado na maior parte do tempo som direto nos diálogos ao invés de dublagem na pós-produção.

2-As pessoas gostaram que Luciano Huck tenha sido assaltado não porque ele é rico, mas porque ele é um chato.

3-E por falar em chatos, petisco é petisco. Comidinha é a puta que o pariu.

sábado, setembro 8

CABEÇA DE PAPEL

É, esse blog tá realmente muito devagar, mas a culpa não é toda minha e somente minha não: o Goggle tá de sacanagem comigo e nem sempre me deixa entrar, nem com a minha senha nova e nem com a antiga, aí isso vai me tirando os arroubos escrevinhatórios. Acresce que lá no jornal, minha segunda fonte de acesso diário além da minha casa, bloquearam tudo quanto foi de blog, orkut, msn, e tudo o mais que possa distrair o fiel trabalhador do seu digno ofício. Já solicitei dos chefes todos a liberação de acesso do meu blog, consegui, os caras das redes internas liberaram, mas na primeira faxina que fizeram no helpdesk bloquearam de novo por engano. E agora tome burocracia pra desbloquear. Quem ama bloqueiaaa...

Mas já que quase por um milagre consegui entrar aqui hoje, deixa eu contar como foi o meu feriado:

Estava eu me preparando pra cair nos braços de mofudeu, na hora de quase sempre, ou seja, quando a aurora começa a espreguiçar os seus braços cor-de-rosa no lençol azul do céu, e eis que não mais que de repente, bem debaixo da minha janela, soam clarins wagnerianos e metais schoenberguianos, seguidos de percussões nanavasconcelianas e estrondos naçãozumbianos. Primeiro só uns poucos e tímidos, pensei até que era alguma charanga de torcedores bêbados perdida na madrugada, mas imediatamente em seguida ouviu-se uma inacreditável e ensurdecedora algazarra de trompetes, trombones e tambores. Pulei da cama e corri pra janela, e pude ver um fileira de ônibus estacionados e outros tantos que chegavam, trazendo o que parecia ser a convenção anual mundial das bandas escolares, um verdadeiro galo-da-madrugada de bandas marciais de variadas cores, formas e tamanhos, e todas tocando a plenos músculos e pulmões ao mesmo tempo e agora. E eu estou no décimo andar, imagine o susto do coitado que mora no primeiro.

Apesar do marcial caos generalizado, pude contar assim logo de cara umas vinte bandas, se incluirmos a do Exército de Salvação, que, que eu saiba, não é um colégio, e através da faixa de pano que duas garotas seguravam, fico sabendo que é de e não da salvação. Lá vinha uma banda toda de fraque vermelho, e outra que parecia um exército de zangões e abelhas amarelos e pretos, lá vem mais uma de azul-marinho e branco, e finalmente uma de verde patriota, e todas tonitroando a todo vapor, com as infalíveis balizas balizando na frente. Invadiram o parque infantil, a pista de skate, a quadra de esportes, o estacionamento e o posto de gasolina. A do posto de gasolina ensaiava estridentemente uns arranjos com as músicas de Luiz Gonzaga, enquanto as balizas, todas vestidas com uma espécie de uniforme da mulher-maravilha, com botas longas e saias curtas, executavam graciosas coreografias de xaxado. Posso garantir, sem medo de errar, que o vigilante do posto nunca teve um final de expediente tão animado.


Devo estar mesmo ficando velho, pois em vez de me irritar com toda aquela barulheira em pleno amanhecer de um feriado, fiquei foi comovido, me lembrando de como eu era fascinado pelas bandas marciais dos colégios de Timbaúba quando eu era criança. Chegava a freqüentar os ensaios da banda do meu colégio, cuja afinação e exatidão de relógio suíço jamais foi superada por nenhuma outra banda marcial que tenho ouvido pelos setes de setembro vida afora. Não é mero bairrismo, a Banda Marcial do Colégio Comercial Timbaubense ganhou todos os concursos de bandas marciais que participou. Não tinha pra ninguém. Essas aí de baixo que remotamente me deleitavam e certamente infernizavam a vida dos meus vizinhos estavam muito longe de amarrar as chuteiras de Zé Mendes, que era o diretor do colégio e o regente implacável da banda que hoje leva o seu nome. Mas não importava, lá estava eu alinhado e perfilado na fila de novo, pronto para a longa marcha no sol escaldante, com a mãozinha espalmada no coração apertado, vendo as bandeiras do Brasil e de Pernambuco sendo hasteadas ao ruflar dos tambores da saudação inicial aos pavilhões nacionais.



O que aconteceu foi que, vi depois no jornal, como a Conde da Boa Vista, tradicional corredor dos desfiles do Dia da Independência, está em obras, o desfile foi transferido para a Cruz Cabugá, e sendo a Rua da Aurora uma paralela, as bandas acamparam aqui antes de desfilar. Ah, bom, porque nos quase cinco anos que morei no Ébano, que também é Rua da Aurora, nunca ouvi nenhum pio, o feriado de Sete de Setembro passava em brancas nuvens. Devia sobrar pro pessoal lá do Derby e adjacências. Pois esse ano veio tudo com juros e correção, houveram por bem de fazer uma espécide de Praça da Pré-Apoteose no Cais da Aurora, aquecendo os tamborins antes de entrar na avenida. E quando finalmente uma ia desfilar, não tinha refresco, logo duas ou três já ia chegando pra tomar o seu lugar. Impossível sequer pensar em dormir, o jeito foi ficar à toa na vida e ver a banda passar. Lá pras oito da manhã me liga Mandrey, recém-chegado de mudança pra um dos edifícios vizinhos, e me pergunta o que é pior, um telefonema incoveniente numa manhã de feriado ou uma banda marcial no pé-do-ouvido.

-Uma não, trinta! Eu contei!
-Você devia ter me avisado, aí eu só viria depois do feriadão!
-Eu também não sabia, nunca vi isso na minha vida!

Por volta da onze horas a coisa começou a amenizar, foi rareando, rareando, e perto do meio-dia tudo já tinha voltado ao normal, e pude finalmente ir dormir.


Pois eu não sabia, Mandra, e confesso que, se soubesse, ainda assim não avisaria. Eu gostei de ter um amigo bem-humorado pra compartilhar esse momento surreal de cinco horas de batucadas, buzinaços, marchas e coreografias, do qual provavelmente vou sentir saudades quando finalmente consertarem o asfalto da Conde da Boa Vista.

segunda-feira, agosto 20

ELVIS FOI ASSASSINADO

Se Deus desse asas à cobra tirava o veneno. Mas como Deus não se guia por ditados populares, às vezes dá asas e veneno a uma de suas criaturas, e em doses maciças. Foi o que aconteceu com Elvis Aaron Presley (8 de janeiro de 1935-16 de agosto de 1977), também conhecido com Elvis Presley, ou simplesmente Elvis, ou simplesmente nada: ficou tão famoso que em 1975 chegou a lançar um disco só com a foto dele na capa e o título do disco, o nome Elvis ao lado ficaria redundante demais.
Dono de um perfil de efígie de moeda, diziam que mesmo se ele não soubesse cantar as mulheres ficariam loucas com o seu mix de Marlon Brando, Tony Curtis e James Dean. Mas além das asas da beleza física, tinha o veneno de uma voz de beleza e extensão impressionantes, que ia tranqüilamente de barítono a tenor sem farrapar na ressonância, e que, segundo todos os críticos, foi ficando cada vez melhor até os últimos dias de sua carreira. Isso pra não falar do carisma no palco com um estilo muito próprio de interpretar, para dizer o mínimo, que até hoje é imitado e o transformou numa caricatura de si mesmo, mas que varreu como um tsunami a América conservadora dos anos 50. Elvis, “the Pelvis”, com a sua interpretação de “Hound Dog” transmitida na televisão em 1956, substituiu nos jornais as manchetes da ameaça comunista.


Ninguém poderia imaginar isso em 1945, quando um menino tímido com cara de bebê chorão tirou em segundo lugar em um concurso de canto numa feira no interior do Mississipi. Seria interessante saber por onde anda o primeiro lugar, é provável que ainda esteja perplexo com o fato que o segundo lugar tenha gravado 101 compactos, 77 LPs e tenha vendido mais de dois bilhões de discos no mundo inteiro, e que continue vendendo trinta anos depois de morto.

Rios de tinta já correram e florestas inteiras de papel já forram derrubadas para catalogar todos os recordes e curiosidades sobre Elvis, e qualquer clic no Google vai desencadear uma avalanche de informações impossível de digerir de uma só vez. Mas a principal delas é que ele foi o detonador da explosão da última grande revolução cultural do Século XX, o rock´n´roll.
Ou pelo menos o Rock que conhecemos hoje. O rock de Bill Halley era muito branco, mais country. O rock de Little Richard era muito negro, mais rhythm´n´blues. O rock de Pat Boone era muito comportado, mais gospel. Elvis foi a antena que captou a sensualidade selvagem do rhythm´n´blues dos negros, o pungente berreiro country dos brancos e a harmonia saltitante do gospel de negros e brancos.
Botou tudo no liquidificador e jogou na cara da conservadora upper class americana dos anos 50 uma atitude de rebeldia que iria servir como referência para a juventude de classe média pós-guerra no mundo inteiro. Vale salientar que o que existia de mais rebelde musicalmente na época era o Rat Pack de Sinatra, pelo menos em termos de divulgação de massa. Elvis, ainda que meio involuntariamente, pois gostava de posar de bom moço, fechou as cortinas dos anos 50 e deu início ao espírito que simbolizaria a década de 60.

E foi isso que o matou. Foi engolido pelo próprio monstro que criou, assassinado pelo veneno que brotou de sua própria alquimia. Sabia, depois de quase uma década só fazendo filmes em Hollywood, que não ditava mais as regras. Ainda tentou voltar como roqueiro rebelde vestido de couro preto no lendário especial para a televisão de 1968, no qual foi o roqueiro radical na sessão unplugged, mas a maior parte do show foi novamente dominada pelas big bands do show business que ajudou a banir nos anos 50. Não era mais o jovem irrequieto e indomável com a sua guitarra amarrada no pescoço com uma tira de pano, era um megaevento ambulante. Mais do que um mito, era a própria personificação do conceito de mito. Para ele estava reservado o pesadelo do outono da vida fazendo shows em Las Vegas, como um Liberace elevado à enésima potência. De nada adiantou os Beatles irem visitá-lo na sua mansão em Memphis em 1965, nem a Led Zeppelin ir aos seus show de Los Angeles em 1975. O menino matuto do Mississipi perdeu pela segunda vez o concurso de talentos, e o coração dele se recusou a continuar batendo em 16 de agosto de 1977, ano que foi o apogeu e, ironicamente, início da decadência de era de ouro do rock.



(Jornal do Commercio, Caderno C, 12 de agosto de 2007)

domingo, julho 29

AVENTURAS E DESVENTURAS NA VIZINHANÇA

Ainda não consegui entender direito a minha vizinhança, exceto pela senhora idosa que mora sozinha lá no apartamento da ponta, que é uma pessoa muito educada e distinta e que tem deficiências visuais e auditivas. O apartamento do meio tem uns vizinhos secretos que nunca vejo, só farejo. É que pela janela da cozinha sai de vez em quando um cheiro delicioso de comida caseira. Eles devem ser muito caseiros mesmo, nem no corredor dão as caras. Agora o apartamento do meu lado, o que fica porta com porta e com o qual divido o cadeado da grade coletiva que nos separa do resto do mundo, esse é que não dá pra entender mesmo. Não que eu fique querendo bisbilhotar vida de vizinho de parede e meia, longe de mim tal atitude reles e viciosa, mas é que quando eu estava me mudando quem me deu as boas vindas foi um rapaz magro com cara e barba de muçulmano, me dizendo que estava ali de meio de passagem, mas que gostaria mesmo era de morar em Olinda. Depois até ele apareceu mesmo com uma atraente esposa com trajes de olindense. Aí outro dia eu estava mostrando o meu apartamento a dois sobrinhos, e consegui a façanha de nos prender aos três no lado de fora do apartamento, porque fechei o cadeado com as chaves dentro de casa. Quem nos socorreu pra abrir a grade do corredor foi um jovem casal de alemães que não fala português, ela, baixinha e gordinha, ele, magérrimo e altíssimo. Pensei que o outro casal tivesse voltado de vez pra Olinda, mas ainda os vejo de vez em quando entrando lá. Devo ser vizinho de uma república multicultural, portanto.


Tive que ir buscar as cópias das minhas chaves na casa da faxineira. Nessa mesma noite de sexta-feira que ficamos preso do lado de fora Zôião resolve desaparecer. Quando chego em casa na madrugada seguinte, nem sinal dele, logo ele que não pode ouvir o cadeado abrindo que se dana a miar feito um louco. Ah, não, de novo não ! Another one bites the dust. Mas no sábado à noite já tinha um cartaz na portaria:


GATOS TROCADOS!
QUEM ACHOU UM GATO CINZA E BRANCO FAVOR DEVOLVER NO APTO 507, POIS O GATO CINZA E BRANCO QUE ME TROUXERAM AQUI NÃO É O MEU. DEVEMOS ESTAR COM OS GATOS TROCADOS!

Claro que esse outro gato cinza e branco só podia ser Zôião. Liguei para o número do celular que estava no cartaz e falei sobre a única característica que distinguia o meu gato do outro: uma mancha cinza no focinho. No mais eram praticamente idênticos, sendo o outro, que fiquei sabendo depois que atendia, ou ignorava, pelo nome de Zinque. Quais as possibilidades estatísticas de dois gatos brancos e cinzas praticamente idênticos cujos nomes começam com Z sumirem de seus respectivos lares no mesmo dia? Eles deviam estar atendendo a um chamado extraterrestre.
Quando cheguei lá Zôião tava todo prosa refestelado no colo da moça, que por sua vez estava inconsolável, pois tinha visto Zinque nascer. No dia seguinte o porteiro me disse que acharam Zinque no quarto andar.

Alguns dias depois, na Redação, ouvi alguém dizer: -Você é o dono do gatinho...
Era ela. Não só morávamos no mesmo prédio como trabalhávamos no mesmo local, separados apenas por alguns biombos. Eu bem que tinha achado ela vagamente familiar...!

quarta-feira, junho 27

UMA HISTÓRIA FANTÁSTICA

Já contei aqui a história do túmulo do meu pai, agora conto outra. Semana passada fui comprar pão francês no Bompreço da Rosa e Silva, o melhor pão da cidade, e como sempre terminei comprando um monte de outras coisas para suprir a despensa do meu novo lar. Entre elas estavam três sachês de comida de gato e uma vidro grande de Nescafé que tinha uma tampa extra de brinde, com alça de um lado e abertura no outro, que transformaria o vidro vazio em uma jarrinha de suco bem simpática. Irresistível, ainda mais porque era a última. Eu, como o bibliômano de Dom Casmurro, tenho uma fissura por exemplares únicos. Quando cheguei em casa e fui botar as coisas na geladeira e na despensa, canto mais limpo, nem sachês nem Nescafé. Tinham ficado no caixa do supermercado.

Hoje combinei com a minha sobrinha Elis de ir assistir o Quarteto Fantástico X Surfista Prateado, mas pra isso eu tinha que passar em algum caixa eletrônico pra sacar algum, que eu estava a quase nenhum. Resolvi ir no caixa eletrônico do Bompreço da Rosa e Silva, só de sacanagem. Uma semana depois, sem a nota de compra, num supermercado de alta rotatividade aberto 24 horas, procurar quatro itens esquecidos, que é claro devem ter sido levados pelo cliente seguinte da fila atrás de mim. Chegando lá, com a cara mais de pau do mundo, mandei logo chamar o gerente. Um assunto grave desses tem que ser com o gerente. Uma bela negra com uniforme da S.W.A.T acionou umas duas ou três pessoas por um walkie-talkie e daqui a pouco me chega um sujeito careca e sorridente com cara de gerente de supermercado.
-Pois não?
-O senhor é o gerente?
-Não, ele já largou, mas eu sou o substituto.
Quase que eu dizia: não tem problema, qualquer um serve, ninguém vai resolver nada mesmo.
-É que semana passada eu fiz umas compras aqui e esqueci um vidro de Nescafé e três sachês de comida pra gato. E já joguei a nota fora há muito tempo. Aliás, joguei no mesmo dia em que comprei.

O próximo passo seria, claro, ele dar um sorriso de desprezo na minha cara e acionar o restante da equipe da S.W.A.T pra me levar algemado pra delegacia mais próxima, ou amarrado numa camisa-de-força pro Hospital Ulisses Pernambucano, a nossa famosa e popular Tamarineira, que por sinal fica praticamente na mesma avenida.

Em vez disso, ele me levou em um balcão onde ficava uma moça, e me perguntou:
-Quando foi mesmo que as compras foram feitas?
-Semana passada, não lembro o dia.
Ele olhou para a moça e ela começou a folhear retroativamente, dia após dia, uns formulários onde se lia no alto da página:
ITENS ESQUECIDOS.

Depois de alguns minutos de suspense, ela revelou:
-Aqui está: três sachês Whiskas e um vidro de Nescafé 500g.
-Venha comigo, disse o gerente.
Aí ele me levou na seção de cafés e achamos, para grande alegria minha e do meu amigo de infância o gerente substituto, a jarrinha de café, que continuava lá como um exemplar único, mas só que lá em cima, na última prateleira, quase invisível. Ele esticou o braço e pegou. Depois ele me levou na seção de comida de gatos, me deu os três sachês, mandou botar tudo numa sacola, se despediu de mim ainda todo sorridente e simpático, eu saquei dinheiro e fui assistir a história fantástica do Quarteto Fantástico.

O CORREDOR MALASSOMBRADO

Finalmente, depois de um longo e tenebroso inverno, no caso quase literalmente, a Velox foi reinstalada na minha linha. Escrever no blog sem a Velox é um saco, o Blogger demora séculos pra carregar qualquer besteira, quando não endoida de vez e some com tudo que você escreveu. Agendaram mil vezes pra só hoje o cara vir de verdade. Quando eles queriam vir eu ainda não tinha feito a gambiarra da linha da sala pro meu quarto, e quando fiz eles sumiram. Dizem eles que um técnico veio uma vez e não havia ninguém em casa. O que é uma calúnia, pois praticamente não saí do apartamento durante todas as minhas férias, afinal viajar pra que, pagar pra ter raiva de avião atrasado? Tinha gente em casa sim, só não tinha gente acordada. Eu bem que disse à anta da atendente pra não mandar ninguém antes das onze da madrugada. As férias já estão acabando e não fiz quase nada do que tinha planejado, que era organizar os meu livros e os meus cds, uma maratona digna dos doze trabalhos de Hércules. Mas, se nada mais eu fizer, valeu só pelo corredor malassombrado que eu montei com as onze gravuras das assombrações do Recife Antigo de Lula Cardoso Ayres que minha mãe me deu. No corredor não se bota mais nada na parede, ficará exclusivo para as assombrações. E hoje eu já mudei a lâmpada, de branca-florescente troquei pra amarelo-âmbar, pra ficar mais lúgubre e combinar melhor com as figuras espectrais e com o encardido do papel antigo. Ficou um mundo à parte, um portal para um universo paralelo e misterioso. É uma delícia circular pelo corredor malassombrado.